Mães na Literatura - Ricardo Aleixo


Ricardo Aleixo
Crédito: 
Henrique Pereira

Palavrear




Minha mãe me deu ao mundo

e, sem ter mais o que me dar,



me ensinou a jogar palavra

no vento pra ela voar.



Dizia: “Filho, palavra

tem que saber como usar.



Aquilo é que nem remédio:

cura, mas pode matar.



Cuide de pedir licença,

antes de palavrear,



ao dono da fala que é

quem pode lhe abençoar



e transformar sua língua

em flecha que chispa no ar



se o tempo for de guerra

e você for guerrear



ou em pétala de rosa

se o tempo for de amar.



Palavra é que nem veneno:

mata, mas pode curar.



Dedique a ela o respeito

que se deve dedicar



às forças da natureza

(o animal, a planta, o ar),



mesmo sabendo que a dita

foi feita pra se gastar,



que acaba uma, vem outra

e voa no seu lugar.”



Ainda ontem, lá em casa,

me sentei pra conversar



com as minhas duas meninas

e desatei a lembrar



de casos que a minha mãe

se esmerava em contar



com luz de lua nos olhos

enquanto fazia o jantar.



Não era bem pelo assunto

que eu gostava de escutar



aquela voz que nasceu

com o dom de se desdobrar



em vozes de outras eras

que voltarão a pulsar



sempre que alguém, no vento,

uma palavra jogar.



Gostava era de poder

ver a voz dela criar



mundos inteiros sem quase

nem parar pra respirar



e ganhar corpo e fazer

minha cabeça rodar,



como roda ainda hoje,

quando, pra me sustentar,



eu jogo palavra no vento

e fico vendo ela voar



(jogo palavra no vento

e fico vendo ela voar)

Comentários

Postar um comentário